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A Tradição de contar histórias de fantasmas no Natal

  • Foto do escritor: Thiago de Andrade
    Thiago de Andrade
  • 24 de dez. de 2024
  • 4 min de leitura

As histórias de fantasmas no Natal, embora hoje pareçam distantes da celebração moderna, têm raízes profundas na cultura europeia. Sua origem remonta a práticas pré-cristãs e ganhou força durante o período vitoriano, quando o mercado editorial e o gosto por narrativas sobrenaturais transformaram essa tradição em um marco cultural.


As Origens: O Solstício de Inverno e o Yule


Antes da cristianização da Europa, o solstício de inverno era celebrado por diversos povos como um momento de conexão espiritual. No Hemisfério Norte, era a noite mais longa do ano, marcada pelo frio intenso e pela escuridão prolongada.


O Yule, festividade pagã que também estava associado ao solstício, era comemorado entre o dia 21 de dezembro e 1º de janeiro, onde realizavam banquetes e rituais que celebravam a volta do Deus Sol e renascimento da Deusa Natureza, trazendo assim um novo tempo de prosperidade e fartura na colheita. Era uma forma de agradecerem por conseguirem sobreviver a mais um inverno rigoroso e escasso. Acreditavam também que esse período tornava o véu entre o mundo dos vivos e dos mortos mais tênue, possibilitando contatos sobrenaturais. Por isso, acendiam fogueiras para iluminar a escuridão e protege-los contra espíritos ruins, além de relembrar histórias sobre seus entes queridos. Eram símbolos de reflexões sobre mortalidade e espiritualidade, temas pertinentes ao final do ano.


Com a cristianização, muitas tradições locais foram assimiladas às comemorações do Natal. A data, estabelecida oficialmente no século V para 25 de dezembro, substituiu rituais sazonais sem apagar completamente seus elementos culturais. Na Inglaterra, por exemplo, a herança nórdica e celta contribuiu para a formação de um Natal único, rico em simbolismo e histórias.


O Papel do Gótico e da Literatura Vitoriana


A literatura gótica, que emergiu no final do século XVIII com obras como O Castelo de Otranto (1764), de Horace Walpole, e Frankenstein (1818), de Mary Shelley, demonstravam o interesse da época pelo sobrenatural e obscuro, e forneceu a base para as histórias de fantasmas vitorianas. No entanto, enquanto o gótico tradicional focava em castelos sombrios e tragédias aristocráticas, os contos vitorianos trouxeram os fantasmas para cenários mais próximos do cotidiano, como casas de campo ou residências urbanas.


Nessas histórias, os protagonistas muitas vezes eram membros da classe média ou trabalhadores domésticos. Esse deslocamento refletia as mudanças sociais da época e ampliava a identificação do público com as narrativas. Alguns autores usavam seus fantasmas para demonstrar ou cobrar os vivos pela desmoralização da sociedade: resolvendo questões inacabadas, revelando segredos familiares ou corrigindo injustiças. Outros, usavam como símbolo das incertezas da época e medo do desconhecido.



A consolidação durante a Era Vitoriana e o efeito Charles Dickens.


  O costume de contar histórias de fantasmas no Natal alcançou seu auge no século XIX, especialmente na Inglaterra vitoriana. Esse período histórico foi marcado por profundas transformações sociais e econômicas decorrentes da Revolução Industrial. O êxodo rural, o crescimento das cidades, expansão do império britânico e as condições precárias de trabalho criaram um ambiente de contrastes, onde o progresso coexistia com desigualdade e insegurança. A abolição do stamp tax — imposto sobre publicações — e os avanços tecnológicos na impressão baratearam os livros e periódicos, ampliando seu alcance. Nesse cenário, a literatura se tornou um refúgio e uma forma de entretenimento mais acessível. Muitas famílias passaram a ler juntas, especialmente durante o Natal, quando as pessoas ficavam mais tempo em casa.



  Outro fator determinante foi o lançamento de "Uma canção de Natal" (1843) de Charles Dickens, que vendeu mais de 6 mil cópias até o dia 24 de dezembro daquele ano. O autor, que já era mundialmente conhecido, ainda publicou mais quatro livros com temáticas natalinas e contribuiu como editor dos periódicos Household Words e All Year Round, publicando anualmente um especial de natal com textos do próprio Dickens e  diversos outros autores.


Os editores, atentos a essa demanda, começaram a publicar histórias de fantasmas tanto em revistas periódicas quanto em edições especiais de fim de ano. Esse movimento resgatou a tradição oral de compartilhar narrativas e a adaptou ao formato impresso, transferindo-a do campo para o ambiente urbano.


Outros escritores britânicos que contribuíram significativamente para o gênero, foram Elizabeth Gaskell, autora de "O conto da velha ama" e "Norte e Sul", e M.R James, com seus contos e leituras anuais de Natal para seus alunos na Universidade de Cambridge.


Costumes e Significado Social


Na prática, as histórias de fantasmas no Natal funcionavam como uma forma de união familiar e introspecção coletiva, causada pelo clima do inverno. Reunidas ao redor da lareira em noites frias, as famílias compartilhavam medos e reflexões. Esse ritual também carregava um tom moralizante, alinhado aos valores cristãos da época, como a caridade e o arrependimento.


No entanto, a tradição não se limitava ao entretenimento. Os contos de fantasmas ofereciam uma crítica às desigualdades geradas pela modernização. Ao mesmo tempo, representavam um retorno nostálgico a valores pré-industriais, promovendo um ideal de lar e família que contrastava com o mundo urbano e industrializado.




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