Resenha: Espíritos de Gelo - Raphael Draccon
- Thiago de Andrade
- 28 de nov. de 2024
- 5 min de leitura

Tive o prazer de conhece o Raphael Draccon enquanto fazia a cobertura da CCXP 2016 para o site Jedicenter. Extremamente simpático e solícito, conversamos sobre cinema, carreira e literatura. Já conhecia seu trabalho desde o lançamento da trologia Dragões de Éter, que fez enorme sucesso e ajudou a consolidar o bom momento da fantasia nacional nos anos 2000, ao lado de nomes como Eduardo Spohr e André Vianco.
No audiovisual, Draccon também possui no currículo algumas produções de destaque, como as séries Supermax (Globo) e O Escolhido (Netflix), das quais trabalhou como roteirista, além da renomada Cidade Invisível (Netflix), série baseada em uma história dele e de sua esposa, a escritora Carolina Munhóz, na qual também atuaram como produtores consultores.
Embora seja o primeiro livro que leio do autor, existem alguns traços característicos evidentes em seus trabalhos: O gosto por recontar uma história, seja usando personagens do imaginário coletivo ou de um determinado contexto cultural. E essa habilidade é tanto a fonte de seu sucesso, quanto seu calcanhar de aquíles. Pelo menos nesse, que é um de seus primeiros livros.
"Se você não se lembrar do que aconteceu nas últimas horas, nós faremos com que sofra ainda mais, como se estivesse em um dos Nove Círculos do Inferno..." Foi o que eles disseram antes do terceiro eletrochoque.

Assim começa Espíritos de Gelo, um thriller psicológico com toques de fantasia sombria, lançado originalmente pela Gailivros em Portugal como parte da coleção luso-brasileira Mitos Urbanos, trazida ao Brasil pela Leya. A coleção, inspirada em lendas urbanas, publicou também Doce Vingança, de Fernando Ribeiro, vocalista da banda Moonspell. Ambos em 2011.
Em uma reinterpretação da lenda do "homem na banheira de gelo", acompanhamos a história de um jovem que acorda acorrentado em um cativeiro. Sem saber como foi parar ali, ele é interrogado por um baixinho com camiseta do Black Sabbath e seus dois capangas, que tentam extrair explicações do que lhe aconteceu para que fosse achado desacordado em uma banheira cheia de gelo, com um rasgo no abdomem. Ele começa a ser torturado e, aos poucos, cede à pressão, conta aos seus algozes o que lembra e desbloqueia memórias que havia perdido devido ao trauma. O livro usa dessa divisão entre cenários, momento atual x narração dos acontecimentos anteriores, para dividir os capítulos, tornando-os curtos.
Essa é uma história sobre poder, tentações e vingança. Apesar de contar com elementos típicos do terror, as cenas de tortura perdem força devido à imaturidade do protagonista e aos comparativos excessivos, que diluem o peso dramático e a atmosfera da cena.
— Existem três coisas capazes de virar a cabeça de uma pessoa: amor, dinheiro e poder. Dê ou retire qualquer um desses itens e ela enlouquece.
Destrinchando o protagonista
Por meio de um breve recorte de sua criação, o autor justifica a personalidade preconceituosa, infantil e controladora de seu protagonista, além de sua vulnerabilidade à hipersexualização. Apesar da forma simplista, a abordagem é eficaz, especialmente quando associada à vivência do leitor e suas observações sobre as hipocrisias e contradições humanas. A representação do típico mimado que, nascido em berço de ouro, foi formado pela competitividade empresarial do pai. Para leitores que se incomodam com personagens detestáveis, ele pode ser indigesto. No entanto, ser detestável não é um erro em si; carisma e empatia são conceitos relativos, e a literatura não se limita a personagens agradáveis.
Porém, o maior problema não é sua personalidade, mas a incoerência de sua construção. Temos um narrador em primeira pessoa que, ao mesmo tempo que desdenha e se mostra oposto a qualquer coisa "nerd", usa um vasto conhecimento sobre cultura pop tanto para destilar seu sarcasmo quanto para descrever um simples local. Um erro grosseiro que evidencia a confusão do autor entre sua própria voz e a do personagem. Um deslize geralmente associado a autores em começo de carreira, na ânsia de expor seu conhecimento acerca do que lhe influencia.
Nesse cenário, somos soterrados por referências rasas à cultura pop que dificilmente criam atmosfera e aprofundam o mundo descrito. Em alguns momentos, Draccon parece incapaz de descrever uma cena sem recorrer a comparativos, buscando um espaço para mencionar uma música, filme ou personagem, tudo para forçar uma conexão afetiva com o leitor. A lista de referências vai de Hobbit, Harry Potter e Percy Jackson até James Cameron, Homem Aranha e Mortal Kombat. Ainda que muitas pessoas gostem desse "fan service", seu mal uso e repetição desgasta o impacto.
As referências que mais contribuem para a narrativa são as conversas sobre lendas e teorias da conspiração do mundo do rock. Nelas, o autor se aproveita da ideia de sua própria trama, relacionando-a com o mundo real e construindo simbolismos e compatibilidades de gostos entre o protagonista e o torturador, ao tempo que tenta fazer do diálogo trivial algo tão instigante quanto a situação em suspensão. Recurso no qual Draccon, como cineasta, provavelmente se inspirou em Tarantino, que faz isso com maestria em seus filmes. É verdade que, com um personagem tão limitado, a tensão do que lhe acontecerá é descartada e irrelevante, sobrando apenas uma conversa interessante ou divertida para quem é apaixonado por rock. E mesmo nesses momentos a imaturidade do protagonista, às vezes, atrapalha e quebra o fluxo dos diálogos de maneira forçada e gratuita.

É um limbo entre achar a escrita ágil pela simplicidade e forma de conversa informal, até que algo ridículo ou antinatural quebre a fluidez. Uma cena mais pesada onde ele é torturado e... a reação do personagem não condiz ou continua descrevendo com referências e pensamentos razos. E assim vamos nos agarrando a curiosidade, na esperança que basta para seguir na leitura.
Nem tudo está perdido...
Curiosidade essa, que vem a partir da iniciação do protagonista em um culto esotérico, um misto de orgias tântricas; ocultismos e ensinamentos de Aleister Crowley. Vemos o enredo evolui desatar os nós da trama ao tempo que nos instiga a avançar na leitura.
Quem o introduz a esse mundo é Mariana, seu interesse amoroso. Personagem que, se não é das mais corretas e amaveis, pelo menos consegue ter uma construção mais agradável e compreensível mesmo em meio a suas dualidades morais. É a partir dessa relação que tudo começa a girar. Sabemos as consequências que a combinação de pessoas ricas em um ambiente sem pudor e acostumadas a exercer poder, com machismo e posse, podem causar. É a curiosidade em ver as consequências ou confirmar as expectativas que nos leva a continuar lendo, atropelando os engasgos da má escrita e erros narrativos.
O autor não dá muitas explicações sobre os conceitos tratados nessa espécie de "seita". Vamos nos familiarizando aos poucos, com pílulas de explicações ao decorrer dos acontecimentos, o que fará leitores mais curiosos pesquisar os termos por conta própria.
Existe uma maior naturalidade em se explicar de acordo com o ritmo pedido pelo desenrolar da história, ainda mais quando visamos o supense ou descoberta de mundo. Espíritos de Gelo parece seguir esse raciocínio ao nos familiarizar aos poucos sobre o que seria essa espécie de "seita". Ainda assim, quando temos uma contextualização do assunto, o livro não se aprofunda como poderia, nem parece ter certeza de qual hora é válido explicar um pouco mais a respeito. Talvez porque cobraria um alongamento considerável de cenas para continuar natural; talvez por Draccon não querer tirar tanto o foco do cerne proposto pro livro (a lenda urbana) em detrimento ao miolo da história, mesmo sendo parte mais promissora. De qualquer forma, acredito que um livro enxuto ajude o leitor a não abandonar uma narrativa problemática.
O encerramento do caso, bem como o entendimento do motivo de estar no cativeiro, vem com uma rajada de plot twists e revelações que tanto podem fazer entusiastas vibrarem, quanto pode soar parcialmente exagerado. Não que o desfecho seja ruim. É digno; podendo até surpreender quem desconhece a lenda urbana original e não se atentar aos detalhes, mas o que tem de maior valor na obra, pouco depende de sua premissa.
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